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BETEL BRASILEIRO PUBLICAÇÕES é membro da ASEC (Associação de Editores Cristãos). Publicou até o ano 2002 a Revista de circulação nacional, RAIO DE LUZ. Livros nas categorias: vida cristã, missão, vocação, missões urbanas, pequenos grupos.

Missões brasileiras

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Missões brasileiras

A missão da Igreja é proclamar a Deus, fazendo-o conhecido nas diversas culturas mundiais com a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo. Missões brasileiras em resposta ao clamor do mundo, com fundamentação bíblica e com a experiência de obreiros transculturais, é um instrumento valioso para nos dispor a cumprir a nossa missão.

A Igreja evangélica brasileira está comprometida com o movimento missionário mundial, com cerca de três mil missionários, atualmente, que comunicam o Evangelho além das nossas fronteiras culturais – em aproximadamente cem países, em todos os continentes. Apesar disso, este contingente é ainda pequeno em comparação ao número de evangélicos em nossa nação. Necessitamos ter maior despertamento da consciência missionária, mobilização de mais pessoas para atenderem a chamada de Deus, envolvimento das igrejas locais em missões, compromisso com o preparo do obreiro, com a organização de movimentos de intercessão e com o sustento, envio e cuidado dos missionários.

Em obediência ao mandato divino, há muito que fazer em prol da expansão do Reino de Deus na Terra. A obra missionária envolve múltiplos desafios para a igreja enviadora e para o missionário. O cristão comprometido com a causa do Mestre tem um papel importante em realizar a obra porque, além de contarmos com aqueles que, efetivamente, vão levar aos campos a mensagem de perdão e de transformação integral, é essencial haver intercessores, mobilizadores e mantenedores de missões. Oramos para que a leitura deste conteúdo possa ajudar você a compreender e contribuir para a Grande Comissão.


Fundamentação bíblica de missões

Ronaldo Lidório, na pregação, discorreu sobre os pontos essenciais da missão, que foi definida, em Lausanne 1974, nos seguintes termos: O propósito de Deus é o de oferecer o Evangelho todo, por meio da Igreja, a toda criatura, em todo o mundo.

Baseado em Romanos 1, Ronaldo afirmou que o Evangelho é Jesus e que, em relação a este, Paulo era o Apóstolo (seu enviado) e servo (seu escravo). O Evangelho é o poder de Deus para salvar (Romanos 1.16). Jesus é a Promessa (preanunciada ao longo do VT – Rm 1.2) e, ao mesmo tempo, o cumprimento dela. A promessa chegou, está entre nós. Jesus, portanto, é o Evangelho (a promessa de redenção), o poder de Deus para a salvação daquele que crê. Nesses termos, o Evangelho não será derrotado, porquanto é o plano de Deus para a salvação da Igreja. E assim, não só deve ser compreendido e vivido, mas também pregado (Rm 15.20; 1Co 1.17). A necessidade do Evangelho é a própria impiedade e perversão dos homens (Rm 1.18). Somos indesculpáveis, pois Deus se revela na criação (Rm 1.19-20) e continua pelo Evangelho revelando-se não só como Deus, mas como Deus redentor, que salva pela graça mediante a justificação da fé no Evangelho (Rm 1.17). Assim Deus nos convida a crer no Evangelho (para que haja redenção) e usa a pregação da Igreja para que isso ocorra (Hc 2.4; Rm 1.17).

Bertil Ekström apresenta Filipenses dentro de sua perspectiva missionária, uma vez que a Epístola foi escrita no contexto de missões transculturais. Extrai do texto princípios missiológicos aplicáveis a nosso contexto. Em seguida, analisa-os à luz da realidade do movimento missionário brasileiro. Dá ênfase à questão dos relacionamentos em missões: relacionamento com Deus, com a chamada missionária, com a igreja enviadora e com os colegas na missão. 

No relacionamento com Deus, Bertil destaca o fato de Paulo, sendo salvo pela graça, ter-se tornado servo de Cristo (ou doulos). Nessa condição, era homem de oração, ciente de suas limitações e totalmente dependente de Deus; por isso procurava aperfeiçoar-se, era-lhe agradecido e visava à glória de Deus como sua grande motivação missionária.

Quanto à chamada missionária de Paulo, Bertil afirma que o Apóstolo relacionava-se com ela a partir da profunda convicção de que fora chamado (1.1; 1.12). Nisso firmava sua própria identidade ministerial, que o levava a envolver-se na obra do Mestre, lidar com as igrejas e ter força interior diante das lutas e da atuação dos falsos apóstolos. Então, consciente de sua missão, propunha-se defender e confirmar o Evangelho (1.7, 16), trabalhar para seu progresso (1.12, 25) e lutar pela fé evangélica. Nessa obra, avaliava positivamente os sofrimentos (1.12, 14, 20, 29; 2.17-18); por isso, reagia positivamente a estes (1.18). Então, nesse contexto, Paulo era exemplo de obediência (1.30), tinha visão (esperança) de futuro (1.29; 3.20), assim como alegria e visão ministerial (1.3; 2.2, 18; 4.1, 10-12).

Bertil nos mostra que nossa atuação na missão não deve ser desassociada da igreja local. Paulo mesmo esteve ligado à igreja de Jerusalém, à de Antioquia e, possivelmente, à de Tarso. Paulo como missionário não teria a mesma eficácia, sem sua prática ministerial anterior a suas famosas viagens missionárias. Os laços, contudo, com a igreja enviadora não devem sustar a ida ao campo. Hoje, temos mais facilidade de comunicação e as atuais ferramentas da tecnologia. Paulo em seus dias não tinha tal vantagem, mas por meio de mensageiros, como Timóteo e Epafrodito, manteve-se informado e guardou vivo o relacionamento com os filipenses, que o apoiavam em missões. Nesse contexto, percebe-se claramente que havia duas estruturas em ação no avanço do Reino: uma fixa (igreja local) e outra móvel (equipe missionária e mensageiros). Hoje, a equipe móvel são nossas agências missionárias. Então, mesmo hoje igrejas e agências (equipes móveis) precisam se unir no exercício da missão.

Bertil, então, lida com a questão dos relacionamentos dentro das equipes missionárias. Faz isso a partir do ensino de Paulo em Filipenses. Destaca, infelizmente, maus relacionamentos entre obreiros como a causa de retorno prematuro de missionários. Segundo Bertil, amenizaremos os conflitos no campo se, antes do envio, como ocorreu com Paulo em Antioquia, o obreiro for discipulado e trabalhar no ministério em equipe, pois, formação de caráter e trabalho em equipe,

anterior ao campo, darão base para a boa atuação transcultural. É no contexto da experiência anterior ao campo que o obreiro deve aprender a reconhecer sua falibilidade, resolver conflitos e seguir os bons passos de Timóteo e Epafrodito (At 16.3; 2Tm 3.10; 1Co 4.17; 16.10; 2Tm 4.21; Fp 2.30). Eles eram obreiros exemplares. Bertil afirma, por fim, que Jesus é o modelo para santidade, humildade e bons relacionamentos nas equipes missionárias (Fp 2.1-11).

 Carlos Queiroz propõe como roteiro do envolvimento na missão seguirmos os passos de Jesus e os passos da primeira geração de discípulos, porquanto, em Jesus, “Deus se revela na forma mais plena e suficiente, para compreendermos seu amor eterno e sua graça infinita.” Nesses termos, a missão de Jesus inclui servir, salvar e regenerar toda a criação; por isso, a atuação missionária da Igreja, que segue o exemplo dos primeiros crentes, é ser testemunha de Jesus e, consequentemente, praticar e proclamar seus ensinos. Então, como Jesus, nossa atuação missionária deve ser encarnacional, acolhedora, geográfica e racialmente inclusiva, reveladora da vida eterna e anunciadora de esperança aos pobres, aos enfermos e aos oprimidos; portanto, anunciadora da chegada do Reino de Deus. Nossa esperança última é ver a criação redimida e o homem transformado à imagem de Jesus (Rm 8.29; 2Co 3.18; 1Jo 3.2). Nos termos propostos por Carlos Queiroz, seguiremos o seguinte roteiro:

1) Manjedoura, símbolo da devoção no expressar a glória de Deus em humanidade plena; 2) Deserto, símbolo de superação das tentações, na missão marcada pela espiritualidade, obediência e santidade; 3) Jumentinho, símbolo de devoção, o qual, diante do reconhecimento público, é despojado; 4) Getsêmani, símbolo do cumprimento da vontade do Pai, mesmo que haja sofrimento; 5) Calvário, devoção da radicalidade no amor a Deus.

Carlos também denuncia práticas missionárias erradas, como: 1) cristianismo-sociedade, expressão religiosa ausente de Deus; por isso, a falta de mediadores entre os desejos dos devotos e as “respostas” da divindade; 2) cristianismo invasor, no tempo da cristianização das terras nativas por meio das dominações política, cultural e militar; 3) concorrência religiosa, isto é: evangelização contagiada de proselitismo e formação de clientela somente.

 

Quatro pilares na obra missionária

Coube a Durvalina Bezerra nos dar os fundamentos bíblicos e práticos para o despertamento da vocação (chamada) missionária. Procura nos apresentar conteúdo de qualidade, que possui respaldo nas Escrituras. Segundo ela, a vocação é um chamado divino; por isso, passa não só pela testificação interior do Espírito Santo (subjetivo), mas também pela confirmação da igreja local. Assim sendo, Deus chama para tarefa e lugar específicos. Para que isso ocorra, provê a capacitação espiritual para o servo obediente à chamada missionária. A aprovação do candidato a missões deve ser posta em evidência pelo caráter exemplar (Fp 2.20-22; 16.2-3) e pela paixão pelos perdidos, de modo que a resposta à chamada missionária é uma resposta a Deus, à igreja local e ao povo alvo.

A mesma autora afirma que, enquanto o chamado é único, o despertamento dele ocorre por etapas. Nesse processo, haverá confrontos com os valores e prioridades da vida e com a necessidade de afetos. Contudo, para que haja vocação missionária, cabe à Igreja ensinar, ser comunidade formadora e como tal fortalecer a base cristã para conhecimento e santidade.

Durvalina propõe passos práticos relevantes para que haja despertamento de vocação missionária. Entre eles, destacamos: a importância do ambiente familiar, a capacitação de mobilizadores de vocação, o incentivo do uso da profissão em missões, a busca de alianças, o exercício de atividades nas igrejas com a finalidade de levar ao despertamento de vocação. Por fim, menciona vários recursos para mobilizadores de vocação. Seu texto é bem enriquecedor e deve ser lido com especial atenção, se vamos ter mais missionários nos campos e mais igrejas enviadoras.

Barbara Burns reflete em treinamento missionário a partir do treinamento de obreiros de Jesus, pois, evidentemente, seus apóstolos, com exceção de Judas e Tiago, filho de Zebedeu, estiveram envolvidos na causa missionária. Barbara declarou que Jesus foi bem sucedido em treinar pessoas que garantiram depois a expansão do Reino de Deus pela atuação missionária da Igreja. Mas isso não ocorreu sem os objetivos educacionais do treinamento de missionários de Jesus: formar pessoas desprendidas, com espírito de aprendiz, humildes, comprometidas com a Palavra, livres de legalismo e etnocentrismos, as quais viveriam em saudáveis comunidades, atuando em todo o mundo.

A obra de formação de obreiros não parou. Jesus continua querendo treinar missionários por meio de nossos centros de formação missionária. Contudo, para que isso ocorra, temos que formá-los nas áreas relacional, bíblico-teológica, antropológica, linguística, educacional, histórica e instrumental (ferramentas ministeriais).

Sendo assim, nossos candidatos precisarão submeter-se ao mesmo vestibular de Jesus. Serão aprovados, se forem pessoas dispostas a pagar o mesmo preço que os apóstolos de Cristo pagaram. A estes convinha ser desprendidos, obedecer a ordens, ser conhecedores da Palavra e ser aprovados por líderes. Barbara entende que as exigências do vestibular de Jesus não são atingidas sem um currículo integrado, como o foi o de Jesus, ou seja: as áreas já mencionadas precisam se completar no exercício de formação de obreiros. Além disso, tem importância o currículo oculto, que se refere ao aprendizado obtido no ambiente de relacionamentos oferecidos nos centros de formação missionária. Nesse dia-a-dia, aprende-se a ser humilde, desprendido de títulos e status, aprende-se a orar e perdoar...

Evidentemente, nossa formação missionária, seguindo os passos de Jesus, deverá ter também sua didática, pois Jesus ensinava de forma variada, envolvente, contextual, levando os discípulos a pensar e a reagir. Dessa forma, havia integração, participação, confronto e transformação. Ao seu ensino Jesus acrescentou o poder do Espírito Santo e utilizou estágios práticos (Lc 6.46-49, 8.21; Mt 10; Jo 13.1-16). Por fim, os alunos de Jesus se formaram na maioria. E nessa capacidade foram incumbidos de ir aos confins da Terra. Que sejamos nós bem sucedidos, seguindo os moldes do Mestre.

 

Alexandre Araújo nos dá um pano de fundo da realidade missionária do Brasil, desde 1986 até hoje. Nosso quadro geral melhorou, pois atualmente já existem igrejas missionárias, agências experientes e bons centros de formação missionária. Então, Alexandre estabelece um paralelo entre a peregrinação de Israel no deserto até à Terra Prometida e a peregrinação da Igreja até à evangelização mundial. Assim como Israel, para atingir o objetivo comum de chegar à Terra Prometida, precisava de equipes especializadas na busca de água, no espiar os inimigos etc., hoje as agências são nossas equipes especializadas no apoio ao povo de Deus, para atingir o alvo comum de fazer discípulos de todas as nações. Assim como as equipes especializadas eram parte do povo de Israel, nossas agências (nossas atuais equipes especializadas) devem ser compostas de pessoas que pertencem às igrejas. Nessa condição, devem trabalhar a serviço das igrejas locais, com o objetivo de ajudá-las a cumprir o mandato missionário. Alex sugere que a parceria entre agências e igrejas locais dará certo, se for pautada pelos princípios de relacionamento saudável entre as partes envolvidas. Propõe para isso dez princípios, assim como elementos práticos, para que haja uma bem sucedida parceria entre agências e igrejas. Vale a pena ler e se inteirar.

 

Antonia Leonora van der Meer aborda o assunto do cuidado integral do missionário. Isso ela faz com a autoridade de ex-missionária transcultural, treinadora de missionários e doutora na área de apoio aos missionários no contexto de sofrimento. Pesquisou o assunto entre dezenas de missionários. No V CBM, falou a partir de sua experiência e pesquisa. Segundo Antonia, há aspectos fundamentais no cuidado integral de missionários, como a promessa da presença de Jesus, o aprender a perseverar, debriefing e encontros de restauração. O objetivo do cuidado integral do missionário é o de suprir as necessidades expressas pelos próprios missionários, nos tópicos: saúde, família, segurança, pastoral, procedimentos psicológicos e emocionais, relacionamentos e adaptação no campo, filhos dos missionários, missionárias solteiras e outros. Para cuidarmos bem dos obreiros, Antonia propõe que tenhamos treinamento apropriado, assim como literatura que promova capacitação. Sua contribuição ajudará a atuação missionária da Igreja a chegar à maturidade no cuidar de missionários.

 

Experiências e desafios de missionários e de pastores enviadores

 

Edison Queiroz enfatiza a necessidade do poder do Espírito Santo na atuação missionária. Isso não é privilégio de uma denominação evangélica, mas conveniência de todo crente aberto para Deus. Estar cheio do Espírito Santo, segundo o autor, é trilhar nos passos de Jesus, que cheio do Espírito enviou sua Igreja nos mesmos termos (At 1.8; Jo 20.21), pois, somente nesse poder, ocorrerá em nossa vida a dimensão espiritual do ministério de Paulo (At 26.17-18). O exercício ministerial do Apóstolo levava as pessoas a saírem das trevas para a luz, da autoridade do diabo para Deus. O mesmo precisa ocorrer nos dias de hoje, por meio de nossa vida, em nossa Jerusalém, Judeia, Samaria e confins da Terra, mas nem sempre vemos isso em ação, pois muitos pastores se negam a ensinar e fazer missões. Assim negam na prática sua função pastoral (Ef 4.11).

 

Ester Lucena aborda a atuação missionária relacional como condicionante da transformação feita pelo Reino de Deus, no contexto da missão integral. Isso em si mesmo exige a quebra do paradigma do rápido sucesso e resultado. Essa concepção exige uma constante atitude de aprendiz na obtenção de conhecimento da ação divina na cultura, por meio de relacionamentos. Estes, por sua vez, acontecem no andar com as pessoas (no caminho), como na comunhão das refeições (mesa). Mesa e caminho, na palavra de Ester Lucena, são metáforas que resumem seu aprendizado, prática missionária e jeito de ver a ação transformadora do Reino de Deus, pois só quando o caminho de Deus na cultura e o caminho do povo se entrelaçam com o caminho do missionário, é que ele (o missionário) pode levar as pessoas a conhecer a Deus, recebendo deste a própria transformação. A palavra de Lucena é interessante e edificante, porquanto é contada no contexto de sua humilde origem, desde a sua chamada e preparo até o campo.

 

Afonso Cherene nos dá seu insight sobre os choques culturais dos missionários e relaciona o assunto com os impactos e processos de adaptação de seus filhos. Enquanto os pais tendem a ser mais lentos e relutantes em adaptar-se à nova cultura, os filhos normalmente são mais flexíveis e se ajustam mais rapidamente. Desta forma, os pais, se não estão atentos aos processos de adaptação dos filhos, podem lhes complicar muito a vida. O autor relata ser testemunha de pais missionários que proíbem seus filhos de captar o sotaque local e o jeito de ser do nacional. Isso impõe aos filhos dos missionários a obrigação de viver com duas personalidades culturais, além de, muitas vezes, terem que conviver com a pressão da chamada missionária dos pais, como se esta fosse a chamada dos filhos. O insight do autor deveria nos levar a refletir em que circunstância esses menores devem ir ao campo, que tipo de preparo e acompanhamento precisam.

 

Olinto de Oliveira enriqueceu o V CBM com seu ensino (testemunho), após décadas de experiência missionária. Ele nos proporcionou uma excelente maneira de começarmos o congresso. Sua palavra nos exorta a voltar aos bons fundamentos da prática missionária, que, segundo o autor, precisa alicerçar-se em três pilares: chamada divina, como experiência subjetiva com Deus; apoio, nas Escrituras, a essa chamada; endosso da igreja à patente vocação missionária pessoal. Ressalta que esta é, em primeiro lugar, chamada à obediência a caminho do campo. Depois, é uma chamada para observar e aprender. Por fim, o ministério fluirá lá mesmo. Nesse contexto, Olinto nos lembra que, às vezes, vamos ao campo e, às vezes, ele vem até nós, como ocorre no caso da China. Esse país tem enviado seus melhores profissionais para as terras mais distantes, inclusive para São Paulo. Nesse sentido, não deveríamos ignorar os chineses entre nós. 

 

Gideon T. falou sobre os que vivem numa área de risco. Temos muito que aprender com ele, pois é bem experiente, treinador de obreiros, no meio dos desafios da perseguição, das diversas línguas e culturas. Gideon entende que a boa prática missionária tem que ser holística, pois, tanto é bíblica como faz parte da cosmovisão das etnias de sua área. Sendo assim, do ensino à prática missionária, este conceito de missões tem que ser fundamento. Presume-se, nesse caso, que exercício profissional e missões andam de mãos dadas. Gideon relata o interessante e engraçado caso do acupunturista que, após inserir muitas agulhas, diz ao paciente que não se mexa. Então, com calma, partilha o Evangelho. Relata também como numa área de oposição ao Evangelho, um líder comunitário (e de desenvolvimento comunitário) possui respeito popular exatamente devido à sua atuação social. Nessa condição, possui inúmeros relacionamentos na localidade; por isso, também prega o Evangelho. São casos concretos do contexto de Gideon, que ilustram a importância da ação holística missionária em áreas de risco.

 

Márcia Suzuki nos comove, pois não se trata de ensino a partir de uma fria pesquisa na biblioteca, mas a partir de situações entre a vida e a morte. Ela aborda o conflito do valor da vida, do ponto de vista bíblico e dos direitos humanos com a prática do infanticídio, segundo cosmovisões tribais, infelizmente apoiada por intelectuais. Seu texto relata como, em determinadas circunstâncias de defeitos físicos e de nascimento de criança de sexo indesejado (menina), aceita-se tal prática. Isso com todas as lágrimas e dores de mães que nem sempre querem matar ou abandonar na selva seus filhos. Foi diante de uma situação dessas que Márcia se viu segurando Harakady e, contra tudo e todos, foi persuadida pela palavra de Provérbios 31.8: “Abre a tua boca a favor do mudo, a favor do direito de todos os desamparados.” É difícil não chorar ao ler o texto ou, até mesmo, ao escrever um breve prefácio. Somos movidos a falar e agir em favor do desamparado, resgatando vidas, como ação missionária normal.

 

Reuben Ezemadu aborda as mudanças no cenário missionário e suas implicações para as igrejas do Hemisfério Sul. Nem sempre as mudanças atuais são boas; por isso, a palavra de Reuben precisa ser assimilada pela vontade de avaliar nossa ação missionária, com o objetivo de melhorá-la. Evidentemente, vivemos nos dias da próxima cristandade, do Norte para o Sul, do Ocidente para o restante do mundo, ou nos dias em que os antigos campos missionários tornaram-se uma força missionária enviadora. A força missionária atual é multirracial; por isso, sai de cada lugar para todo lugar. Reuben ressalta que a tendência atual de missões de curto prazo, ao invés do longo, não pode prevalecer, pois, nesse aspecto, missões será mais turismo do que ministério transcultural. Adverte que a atuação missionária somente em função de emergências ou em função de uma causa com mais apelo financeiro, colocará os Povos Não Alcançados em segundo plano – o que será uma tragédia do ponto de vista do mandamento bíblico missionário. Ao longo de seu texto, Reuben nos exorta a atuar missionariamente, a partir dos valores bíblicos e não circunstanciais.

 

Paul Freston faz uma análise da prática missionária brasileira. Sua palavra no congresso não foi aceita por todos; líderes de peso, porém, consideraram-na importante. Devemos não só nos avaliar, mas ter a humildade de nos deixar ser avaliados com o objetivo de melhorar nossos pontos fracos. É verdade que os pontos levantados por este autor não se aplicam a todos, mas são costumeiramente percebidos, principalmente quando a prática missionária brasileira não seguiu os princípios da boa seleção, treinamento, envio e cuidado missionário. Somente para ressaltar alguns pontos do texto, Paul Freston nos lembrou as seguintes questões:

 

1) Somente 25% dos missionários brasileiros estão na chamada “janela 10/40”.

2) Podemos nos embaraçar com a globalização, imaginando um mundo mais uniforme do que parece. Neste caso, missões é uma via de mão dupla, tanto o campo vem até nós como temos que ir ao campo. Nem por isso estamos culturalmente adaptados.

3) A facilidade dos constantes contatos com o Brasil, via internet, pode privar o missionário de aculturação mais rápida e mais profunda. Pode até roubar-lhe o tempo de ministério no país.

4) Necessitamos aprender a conviver pacificamente com pessoas de outras convicções religiosas numa sociedade pluralista. Batalha espiritual, quando não é bem entendida, poderá nos levar a estar em batalha no dia-a-dia com o povo que vamos alcançar e não somente com as forças espirituais.

5) Posições favoráveis ao Ocidente e a Israel também podem atrapalhar nossa prática missionária. Paul Freston aborda no texto vários desafios, como: vantagem e desvantagem da identidade brasileira; a inexperiência atual e a imagem missionária negativa anterior; o ‘nascer de novo’ em outra cultura. Para cada ponto, faz suas ressalvas como pesquisador. Entendemos que enviados e enviadores precisam levar em consideração esta análise.

Estamos confiantes em que você será edificado com a leitura deste livro. Ele contém as bases para uma boa atuação missionária da Igreja brasileira.

Pr. Silas M. Tostes

Presidente da Associação de Missões Transculturais Brasileiras.

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